Trecos e truques na caixa de Pandora











Há alguns anos, me deparei com uma inquietude: quando assistia aos filmes de Charles Chaplin tinha algo dentro de mim que parecia precisar de respostas. Mas como dar uma resposta se eu nem sabia qual era a pergunta???A comoção em ver o eterno vagabundo lutar pela maciez amarela da batata, parafraseando aqui Drummond, me despertou a vontade de chorar e rir concomitantemente. Desde então, nutro uma verdadeira paixão por este eterno vagabundo que carrega um pouco de cada um de nós e é a expressão do humano em sua forma mais lírica.

Qualque um que leia a autobiografia de Charles Spencer se depara com um menino pobre que vivia no subúrbio de Londres e que viu a mãe enlouquecer devido à fome. A história de chaplin não perde em nada para muitos garotos pobres que enfretam turnos exaustivos de trabalho braçal para levgar para casa algumas moedinhas ou, quem sabe, um pedaço de pão. Poucos livros na vida me comoveram tanto, poucos filmes conseguiram me desestabilizar de igual maneira do que aqueles em que um vagabundo entra na cena sempre maltrapilho, com fome, mas vestido de fraque e com um chapéu coco.

É impossível falar da história de cinema sem citar a imagem do clown Carlitos. Geralmente, os grandes filmes hoje ganham o Oscar por várias categorias e, pensar que Chaplin só recebeu um único prêmio em sua vida pelo conjunto de sua obra. Isso, sem contar as inúmeras perseguições políticas as quais se viu envolvido porque sua obra era jugada comunista num momento histórico em que o mundo era visto de uma forma maniqueísta e bipolarizado.

Sem dúvida, Chaplin extraiu poesia das imagens como poucos foram capazes de fazer. O silêncio de suas palavras que lutaram para continuar assim até o filme O Granden Ditador revelam que muitas vezes o silêncio vale mais que as palavras e os gestos mais que as intenções.

O espectador hoje preocupa-se em ver mais os efeitos especiais de um filme, os críticos analisam as falhas e alguns ainda se fiam no enredo para ver se lhes agrada a história. Contudo, a experiência de olhar os filmes de Chaplin não apenas como uma parte evolutiva da cinematografia, mas sim como uma obra de arte que resiste aos tempos e mantém-se atual revela que ainda podemos encontrar o encantamento na arte mais pura e simples, aquela que depreendemos com um olhar e captamos por um singelo gesto.



et cetera