Trecos e truques na caixa de Pandora











Algumas leituras mudam nossa relação com o mundo.
Há alguns anos, incentivada por um amigo que é artista plástico, li o livro A Insustentável leveza do ser. A sensibilidade da forma com a qual foram tecidas as verias histórias do livro me deram uma nova visão da vida, das pessoas e até, quem diria, das relações que travamos com as pessoas.
Recentemente, uma última leitura balançou as bases que eu tinha firmes: Ensaio sobre a cegueira. Curiosamente, durante uma semana encontrei dois deficientes visuais e os auxilie em tarefas que para nós parecem simples, mas que para eles definitivamente não o são: atravessar ruas, tomar ônibus etc.
Não me considero uma boa leitora e nem tenho presunção de sê-lo. Pra mim, o importante de um livro é sentir que ele rouba a minha alma e que, depois dele, minha vida não será a mesma.
Na minha infância, eu era ávida por leituras de todos os tipos: revistas, gibis, livros etc. Cresci acreditando sem saber bem o porquê no poder das palavras e escolhi estudar Letras. Somente alguns anos depois, já no final da faculdade, pude entender que minha escolha estava relacionada a minha crença de que as palavras têm poder. Acredito que de alguma forma, elas são responsáveis pelo mundo em que acreditamos e o que queremos. Foi assim com Deus em Genesis, foi assim com Adão.abraco-literatura
O que é importante nas leituras que fazemos é que temos a oportunidade de fazer um movimento de encontro ao outro. Não sei se tenho direito de falar de livros aqui até mesmo porque seria só minha opinião sobre alguns deles e também não quero ser uma crítica tipo barata-de-biblioteca porque isso é enfadonho.
Pretendo apenas compartilhar minhas impressões e falar do que os livros que leio – no escasso tempo que disponho tentando me dividir entre o mestrado e o trabalho – e que de alguma forma me tocam.
Tenho uma lista de livros que prometi a mim mesma ler por deleite. Quem sabe, se eu conseguir cumprir minha própria promessa, eu possa dividir um pouco dessa experiência com vocês.

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{01/02/2009}   Salto Alto

Os velhos amores passam… já dizia o poeta.
O tempo oxida os rostos e as vontades transmutando tudo em algo novo.
Geralmente, vemos mulheres passionais que se entreguem à paixão e deixam que sua alma fique presa a outro ser. Ela era assim… amava e odiava com o cólera de um deus dos trovões.
A suavidade de suas palavras e delicadeza de seus gestos era logo substituída pela eloquência de sentenças que escapavam de seus lábios e ficavam vagando pelo ar.
Naquela manhã ele normalmente despiu-se, tomou seu banho, fez a barba e pôs seu melhor perfume. Ela podia sentir o hálito dele cheirando a frescor de hortelã quando se recusava entender as palavras que sofriam para escapar por entre seus dentes. Era como se uma bomba atômica fosse solta naquele exato segundo em seu coração. Ela, só estilhaços.
As lágrimas banharam seu corpo e ela mal podendo sustentar o peso das próprias pernas. Não, não queria mais viver. Passou um dia, dois, três. Ela não tinha mais vontade de sorrir, de pentear os cabelos ou se maquiar – coisa que era tão afeita. Mas aí, subitamente o vento do destino mudou de direção. Sua amiga ligara oferecendo-lhe um novo emprego.
No outro dia, com sofreguidão levantou-se e vestiu-se descompromissadamente. Porém, de alguma forma, alguma força ainda restava dentro dela. Pegou um táxi e dirigiu-se para um luxuoso prédio que ficava no centro da cidade. Quando se deparou com uma parede de espelhos em frente ao saguão quase não se reconheceu e sentiu vergonha de si por um momento – como se permitira chegar a tal estado.
Logo de ser anunciada, entrou numa sala onde o mobiliário elegante contrastava com um enorme quadro vermelho na parede. Aquela imagem chamou-lhe tanto a atençao que não viu entrar um elegante homem que trajava uma camisa branca e trazia um papel em suas mãos. Ele se dirigiu a ela perguntando seu nome e ela se assustou, pois estava compenetrada naquela imagem como se estivesse hipnotizada.
Conversaram alguns minutos e ele perguntou se ela havia gostado do quadro. Ela ruborizada disse que a arte sempre fala àqueles que a sentem.
Quando ela chegou em casa, pegou as fotos antigas, roupas e colocou tudo dentro de uma caixa. Um Mês depois já era uma das secretárias mais importantes da empresa. Sempre com um sorriso no rosto, atendia a todos e quando voltava para a casa via aquela caixa ali no canto, abandonada.
Algo já melhorara em sua auto-estima desde então. Foi então que num almoço com as amigas da empresa viu na vitrine um sapato vermelho. Quando ela parou em frente dele foi como se seus olhos estivessem extasiados. Instigada pelas amigas, entrou na loja e provou o sapato: “Ficou perfeito”, pensou.
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No outro dia, vestiu sua roupa mais elegante: uma saia preta, uma camisa branca de linho, uma meia-calça arrastão e os sapatos vermelhos. Quando desceu do carro no estacionamento notou olhares que nunca tinha percebido. “Será que é por causa do penteado ou da maquiagem?”, pensou.
Assim que entrou no escritório todos os olhares se voltaram pra ela. Ela sentiu um calafrio percorrer sua espinha, respirou fundo e continuou a andar lentamente como se seus passos tivessem que ser milimetricamente pensados. Por fim, sentou-se na sua cadeira.
Naquele momento nascia uma nova mulher. Sob o salto alto vermelho, um simples par de sapatos, ela agora sentia-se desejada como uma jóia na vitrine. O olhar daquele homem transpassava-lhe e ela sentia suas mãos trêmulas. Os dois não desviavam o olhar. E foi assim, numa quarta-feira de manhã que começava a se inscrever uma nova história na vida dessa mulher, mas que na verdade já havia sido rascunhada numa manhã cinzenta enquanto uma boca qualquer cheirava hortelã.



et cetera