Trecos e truques na caixa de Pandora











Há algum tempo atrás, durante uma prova institucional, eu disse a uma aluna que exigia que eu pegasse seu caderno e anotasse uma fórmula matemática na lousa que, em hipótese alguma, eu não poderia fazê-lo, mas que ela deveria fazer a prova e depois questionar junto à instituição a respeito da questão que ela tinha dúvida.  Imediatamente, outra aluna se levantou no fundo da sala e, num ímpeto, me disse: “Você tem que escrever a fórmula, eu estou pagando”.

Virei-me, calmamente, e lhe disse: “Bem, você está fazendo uma prova, não comprando um produto da prateleira”. Devo dizer que lavei minha alma naquele momento.

No entanto, as pessoas se esquecem do contrato pedagógico concernente ao processo de ensino-aprendizagem. Para ser sincera, as relações tecidas no cerne de uma sociedade consumista depauperam a educação transformando-a em algo meramente utilitarista.

Podemos pagar por um lanche, um tênis, um carro, um passeio, uma joia etc. Daí, se estabelece um contrato de empresa e cliente protegido legalmente por um código que defende o direito do consumidor.

No caso do trabalho de um docente, o ‘produto’ não é algo concreto que você materializa num diploma ou numa nota no final do semestre. Na verdade, o diploma é um documento legal que corrobora sua formação. A própria palavra ‘formação’ reitera a ideia de processo.

Quando ouço a frase “Eu estou pagando” relacionada à educação, tenho espasmos porque sinto que diante do ‘deus dinheiro’ as pessoas acham que você é obrigado a se subordinar e aceitar tudo passivamente.

 As mulheres que vendem seus corpos devem ter a mesma sensação quando ouvem essa frase, claro, num contexto diferente.

Sou consciente de que vendo minha força de trabalho, segundo Marx. Mas isso não quer dizer que sou subserviente. Antes de tudo sou uma educadora e não uma prostituta intelectual.



et cetera